O Case da Playke Quadros em Metal : Lançando um Produto Inovador na Pandemia
Esse foi o desafio da Playke, uma startup e subsidiária da AFIXGRAF, que trazia uma ideia inovadora: quadros em metal com um sistema de fixação magnética único, que não agredia a parede. Fui o designer responsável por criar a identidade visual da marca e por gerenciar toda a sua presença digital e de produto.
O Desafio
O produto era uma inovação: um quadro que não precisava furar a parede para fixar. Ele se utilizava de um sistema único de ímãs e adesivos que permitia a instalação em qualquer superfície lisa, sendo ideal para imóveis alugados. Mais do que isso, era uma impressão UV de alta resolução em metal, que também permitia a troca rápida das artes, simplesmente removendo um quadro e colocando outro no ímã.
O maior desafio não era apenas estético, mas educacional. Estávamos no final de 2020, em plena pandemia. Precisávamos convencer o cliente, preso em casa durante o lockdown, de que era possível renovar seu ambiente sem furar a parede, de forma prática e com qualidade. Minha missão e da minha equipe era traduzir essa inovação em confiança e desejo.
O Designer Fundacional
O projeto começou com um rebranding e uma nova administração. Comecei liderando essa frente, criando o novo logotipo e a identidade visual inicial. Após a entrega, fui contratado como o designer interno responsável pelo projeto.
Atuei como o designer principal da startup, sendo responsável por todas as frentes de design. Era um ambiente 100% remoto e transcontinental (Brasil, EUA e Canadá), e minhas responsabilidades cobriam tudo o que uma startup em início de operação precisa:
- Branding: Logo, papelaria contratual e o certificado de autenticidade.
- Produto: Design de embalagens e manuais de uso — peças cruciais focadas em educar o usuário sobre a instalação.
- E-commerce (Shopify): Gerenciamento da plataforma, banners, fotos de produto, e o trabalho de base: otimização de SEO, alt-text e UX Writing focado em conversão.
- Marketing Digital: Criação de todo o conteúdo visual para redes sociais (estáticos e vídeos), campanhas sazonais e anúncios pagos (Facebook/Instagram Ads).
Foram quase 3 anos de muita exploração e resultados, alcançando uma rede social de 12 mil seguidores e um crescimento robusto em plena pandemia.
Posicionamento de marca e a Primeira "Pesquisa de Usuário"
O primeiro ano foi sobre definir quem éramos. A ideia inicial era numerar os quadros para criar séries limitadas. Porém, bem na época, explodiu o mercado de NFTs. Reunimos fundadores e os mais de 30 artistas parceiros (stakeholders) e tomamos uma decisão estratégica: abandonamos a ideia de numeração. Entendemos que os NFTs seriam desvirtuados pela especulação, e nosso posicionamento era o oposto: queríamos que a arte fosse acessível a todos, em um ótimo "canvas" (o Playke).
Com 1,5 ano de empresa, tivemos nosso primeiro encontro presencial. Essa reunião foi nossa primeira pesquisa de usuário em conjunto. Em meio a muitas anotações no vidro do escritório, definimos um novo backlog de produto:
- Criar uma "Área do Artista" no site para acompanharem os pedidos.
- Um retrabalho integral nas imagens do site para um formato mais "Google-friendly".
- Atenção maior ao Blog para aumentar o fluxo de entrada e melhorar o ranqueamento.
A curva de aprendizado foi gigante. Gerenciar um E-commerce (Shopify) era uma grande novidade. Precisei aprender e padronizar muitas regras em escala: desde o desenvolvimento de imagens até a conformidade com leis internacionais de acessibilidade (como a ACA do Canadá).
O Pivô Pós-Pandemia e o Playke 22
Com o fim do lockdown, enfrentamos o desafio que mudaria tudo. Nossos números começaram a cair conforme as pessoas saíam de casa. Precisávamos inovar para sobreviver. Foi então que lançamos o Playke Personalizado (Playke 22).
A ideia era pivotar da arte decorativa para a memória afetiva: as pessoas podiam enviar suas próprias fotos para um quadro de 22x22cm. Isso abriu um negócio inteiramente novo e conseguimos patrocínios relevantes. No final deste ano, ajustamos nossos métodos de organização, migrando de planilhas para Kanban e Asana.
Testes, "Saltos de Fé" e Inovações
No terceiro ano, com a equipe de marketing maior, começamos a coletar feedback ativamente via e-mail marketing. O site foi atualizado, o manual de instalação refeito com base nesses feedbacks e o kit de instalação foi aprimorado.
Percebemos algo crucial: publicações com pessoas reais convertiam melhor. Isso nos levou a lançar duas campanhas de vídeo pagas para um teste A/B:
Animação ("Mauro"): Um boneco 2D animado que apresentava a narrativa clássica: Problema, Frustração, Ideia, Solução (Playke) e CTA.
Expositiva (Ator Real): Um ator mostrando o produto e como instalá-lo na parede, de forma direta.
O resultado foi uma encruzilhada: a Animação teve a maior taxa de visualizações, mas o Ator Real teve a melhor conversão. Isso levantou a questão: deveríamos focar em popularizar o produto (branding) ou vender agora (conversão)?
Decidimos seguir ambos os caminhos. Comecei a estudar animação 3D para produzir um novo vídeo de instalação (unindo 3D e atores reais) e migramos o foco para vídeos curtos (TikTok, Reels, Shorts).
A verdade é que o futuro de uma startup é nebuloso. Como prega o livro "Startup Enxuta", precisávamos dar vários "Saltos de Fé". Com orçamento baixo, muitos MVPs iam direto para venda. Mas era difícil saber o que estava dando certo, com números não de Milhares, mas de "Unidades". Torcíamos pelo feedback em plena época que a moda era "sair de casa e tocar a grama".
Continuamos a inovar: lançamos molduras com textura impressa e novos tamanhos. Com o conhecimento em 3D, estávamos desenvolvendo um filtro de Realidade Aumentada (AR) para o Instagram, que permitiria ao usuário "testar" o quadro na sua própria parede.
Foi quando surgiu um novo desafio: Direitos Autorais. Conforme as campanhas cresciam, descobrimos que artes de artistas parceiros não se encaixavam no Fair Use de personagens famosos. Tivemos que retirar artes que faziam sucesso, e fiquei muito apreensivo sobre qual era o rumo da empresa.
Lições de uma Startup (O Fim do Ciclo)
"No final de 2023, a Playke fechou seu ciclo."
Foi um fim com muitas ideias não concretizadas, mas um conhecimento imenso validado. A verdade é que o futuro de uma startup é nebuloso. Demos vários "Saltos de Fé". Muitos MVPs iam direto para venda com orçamento baixo, e com vendas na casa das "Unidades" e não "Milhares", era difícil saber o que realmente estava dando certo.
O fechamento se deu por uma confluência de fatores que são a realidade do empreendedorismo no Brasil:
Time-to-Market: O mundo mudou rápido demais. A pandemia que nos ajudou a nascer, também nos prejudicou na saída.
Product-Market Fit (Técnico): O produto era excelente, mas exigia uma parede muito lisa. Grafiato ou texturas, comuns no Brasil, impediam a aderência, limitando nosso público.
Product-Market Fit (Cultural): Estávamos disputando uma parcela do orçamento do brasileiro que encolhia com a inflação. Investir em decoração artística digital não era uma prioridade. Descobrimos que o nicho alcançado, por vezes, se importava mais com o que era exibido (o personagem) do que com a qualidade do produto (o metal).
Hoje, vejo que era um produto atemporal, mas que talvez não fosse para o mercado brasileiro naquele momento. Saí com uma bagagem imensa em gestão de e-commerce, UX, SEO, branding e, o mais importante, sobre a resiliência necessária para pivotar um negócio em meio a uma crise.